DIÁRIO DO COMÉRCIO

NA VOLTA PARA CASA, OPÇÃO PELO CENTRO

Disposto a montar um negocio próprio no Brasil, empresário deixa a Itália e volta a São Paulo para abrir um café no centro.


Eliete Nogueira

Foi preciso que o plano Collor levasse o paulistano Aldo de Rosa, hoje com 37 anos, para a Europa, em busca de outra vida, para que ele pudesse voltar sabendo o valor que têm as regiões centrais das grandes metrópoles do velho continente. Aldo, que tinha no Brasil uma franquia de posto de gasolina, embarcou em 1994 para Bruxelas na Bélgica disposto a montar seu negócio próprio. Mas a dificuldade de idioma fez com que, sendo filho de italianos, ele optasse pela Itália. “Fui sem saber que a cidade industrial fechava nas férias e todos iam embora”, recorda. Percebeu então que teria que aprender uma profissão, já que não tinha recursos para montar um negócio.

Estudos – Já sai do Brasil com a idéia de fazer cursos de alimentação. Afinal a Itália tem 70 mil Pratos típicos”. A maioria dos cursos que ele fez foram na área de bares, saindo de Milão foi trabalhar nas cozinhas de Florença, para onde se mudou com a esposa Ana Cecília. Pouco tempo depois, o casal iniciava a empreitada no ramo com a abertura do café Il Gobbo (o corcunda), num ponto tradicional de 70 anos. “Um bar novo”, brinca, "pois em Florença há bares de 300 anos”.

Il Gobbo, conta Aldo, era um ambiente em constante transformação. “De manhã servíamos café e o bar era freqüentado por advogados, engenheiros e comerciantes, que também vinham para o almoço. No fim da tarde fazíamos o happy hour, mudava tudo, o cliente, a iluminação, todo o perfil da casa. Havia mais jovens e pessoas passeando.
Segundo Aldo, na Itália, não foi difícil conseguir um empréstimo para abrir o bar. “Você paga 4% ao ano e emprega o dinheiro para capital de giro e estoque, pagando a dívida com o resultado do trabalho. Mas, de 100 brasileiros que conheci lá, 98 queriam voltar. Esse pensamento sempre esteve comigo e depois de quase dez anos na Europa, achei que tinha capital suficiente para voltar e montar um negócio aqui.”

Giramondo – Aldo abriu recetemente, na Rua Marconi, o Giramondo Caffè. “Pesquisei por três meses um local e fiquei entre Paulista, Berrini, Faria Lima e o Centro.
Optei pelo centro porque é o lugar para onde tudo converge e acredito que na vida tudo é cíclico. A região atingiu o fundo do poço e está querendo subir. Certamente vai se reerguer”, diz Aldo, para quem a Berrini pareceu “mascarada”. “Vi uma avenida muito vazia, alugando prédios. Além disso, a Berrini não tem história como o Centro, não tem uma estrutura sólida, e lá todos trabalham com delivery, sem contato. Aqui no Centro você tem gente, tem história. Em 40 dias identifiquei gente que está aqui há 40 anos. Isso é bom”.
No primeiro dia, o Giramondo vendeu 200 cafés, e a meta é chegar a 600 cafezinhos. O número foi estabelecido de acordo com o potencial que ele identificou na região da Marconi. Aldo identificou 28 cafés num raio de 800 metros do ponto que alugou. “Mas como penso que café não é apenas uma bebida gostosa e quente, mas também um momento de relaxamento, vi que ainda tinha espaço na região.

Diferencias - Para aproveitar o nicho de mercado, Aldo fez questão de tornar o Giramondo um lugar bem-cuidado nas cores e nos balcões, projetados pela mesma arquiteta brasileira que decorou Il Gobbo, em Florença. A máquina de café veio da Itália, desmontada pelo próprio Aldo com a ajuda do técnico da fábrica. As geladeiras são de padrão europeu. Nas paredes fotos de bares italianos e, no cardápio, cafés e sanduíches diferentes atraem a clientela.

“ Não tenho dificuldade para tirar um café, pois aprendi com os italianos que são adultos nesta arte em que nós brasileiros ainda somos meninos”, gaba-se. Aldo explica que, para fazer um bom café, deve-se levar em conta uns quinze fatores diferentes. “Se colocar dez décimos de pó a mais ou a menos o sabor do café se altera”, precisa.

Com toda essa experiência, Aldo está confiante no negócio. Para ele, agora é preciso dar tempo para que o Centro se revitalize. Não adianta construir prédios de cristal, vidro fumê, a magia está no centro. Os 450 anos estão aqui”.